Cantor do Pearl Jam tocou músicas da banda mas não apostou em baladas que são hits. Ele lembrou Tom Petty em apresentação de mais de duas horas na noite desta quarta-feira (28).

Foi uma celebração dos mortos (“e dos espíritos”, nas palavras dele) o show solo de Eddie Vedder, do Pearl Jam, na noite desta quarta-feira (28) no Citibank Hall, em São Paulo. De acordo com a organização, os 4.150 lugares foram vendidos.

Neste primeira das três apresentações previstas, o clima foi de comunhão com os fãs (rola distribuição de copos de vinho para quem está nas primeiras filas), alguma descontração (mas menos que na vinda anterior, em 2014) e sem apelação para baladas óbvias da banda que projetou o cantor. A voz estava excelente.

Durante as mais de duas horas no palco, houve tempo para Vedder fazer discurso antiarmas e tocar “Imagine”, de John Lennon.

“Posso pedir um favor? Acendam suas lanternas. E cantem comigo para esse homem incrível que foi morto a tiros”, disse (em português com cola, como de costume), antes de mostrar sua versão do hit do Beatle, já na parte final.

E ele já tinha falado: “Alguns fazem armas. E acham que as armas vão nos trazer segurança. As coisas são diferentes hoje. Nada mais é seguro por causa das armas. Pedimos que parem, pensem e sintam, para que a violência diminua. E que nossos filhos estejam seguros em suas escolas”.

O show é feito de muitos covers: The Clash, Bob Dylan, Nine Inch Nails, Everly Brothers e Daniel Johnston, por exemplo. Mas todas no estilão Eddie Vedder de ser e de cantar.

Do material do Pearl Jam, vieram novamente versões que não igualaram as originais, mas reforçaram o vigor vocal deste senhor de 53 anos de idade e esforçado para ser simpático, que ri das próprias dificuldades (com acordes e com o idioma local).

À paisana e sem instrumental pesado da banda, restou o essencial: o timbre (que para muita gente é um problema, vamos reconhecer) e versos comoventes, com Vedder revezando-se entre guitarra, violão e ukelele, o parente havaino do cavaquinho. A performance tem momentos meio homem-banda que por vezes fica meio desencontrada que nem de artista de rua da Avenida Paulista. Faz parte da espontaneidade, e ninguém liga.

‘Espíritos entram de graça’

O show começou com o artista de costas para a plateia e tocando, no órgão, uma faixa apresentada no final do ano passado, conhecida entre os fãs como “Share the light”. Três músicas depois, veio um discurso:

“As músicas serão sobre perdas – e não falo sobre futebol. Desde a última vez em que estive aqui, há três anos, perdi pessoas próximas, heróis e meu irmão”, começou. “Espero que vocês não tenham passado por isso. Mas, se tiverem, vamos cantar.”

Apesar do conteúdo grave da fala, Vedder se esforçou para mostrar o bom-humor que é marca de seus shows solo. “Espíritos entram de graça”, brincou. “Vamos celebrá-los [os mortos]”, acrescentou, citando que estava “triste”.

(Teve gente na plateia que gritou “Chris Cornell!”, o líder do Soundgarden que se enforcou em maio do ano passado. Mas ele não foi citado nominalmente por Vedder, de quem era amigo.)

Em seguida, o vocalista do Pearl Jam amenizou, falando em amor e na “sorte que temos”. “Estamos a salvo desta tempestade de hoje.” Era uma referência à chuva forte que tinha castigado São Paulo.

Veio, então, uma boa versão de “I am mine”, do Pearl Jam, que tem um verso apropriado: “We’re safe tonight”.

 

Dentre outras músicas da banda, versões de “Sometimes” (guitarra muito alta e distorcida), “Just breath” (uma versão muito bonita, mesmo), “Light years”, “Wishlist”, “Immortality”, “Crazy Mary” (na verdade, esta não é do Pearl Jam, mas é famosa na releitura deles), “Long road” e “Porch”.

Esta última, foi a única coincidência com o set do Pearl Jam no show deste sábado (24) no Lollapalooza, também marcado por discurso antiarmas.

Covers e homenagem a Tom Petty

Dos covers, além de “Imagine”, destaque para “Should I stay or should I go”, do Clash, tocada com ukulele distorcido (ficou esquisito, mas interessante).

Teve ainda “Wildflowers”, de Tom Petty, anunciada assim (sempre em português): “Esta música é para o meu amiigo e grande herói, Tom Petty. Ainda não acredito que ele se foi. O mantenho sempre por perto tocando suas músicas, o que às vezes me faz sentir ainda muita saudade”.

Como contraponto, mais tarde diria: “O homem que escreveu a próxima música continua vivo e muito forte. Tenho grande respeito por ele. Não toco com frequência, mas às vezes preciso”.

A música era “Hurt”, do Nine Inch Nails, escrita por Trent Reznor.

Já no bis, teve “Sleepless nights”, dos Everly Brothers e agora com participação do irlandês Glen Harnsard, que tinha feito o show de abertura. O parceiro cantou junto ainda “Society”, de Jerry Hannan, e a última do set, “Hard sun”, composição de Indio.

 

As duas últimas estão no disco “Into the wild”, primeiro álbum solo de Vedder, com músicas da trilha do filme “Na natureza selvagem”.

Mas teve gracinha, sim

Dos quatro grandes do grunge, o movimento que surgiu em Seattle no início da década de 1990 e levou sua mistura de punk, metal e alternativo ao mainstream, o Pearl Jam é o que resta, sendo Vedder o sobrevivente.

Afinal, já morreram Kurt Cobain, do Nirvana, que se suicidou em 1994; de Layne Staley, do Alice in Chains, que morreu de overdose em 2002; e Chris Cornell.

Talvez esteja aí uma possível, nessa sucessão de tragédias, a explicação para o fato de Eddie Vedder não se permitir chutar o balde na autocelebração. Um motivo adicioanl seria o momento político dos Estados Unidos.

Em certo momento, ele se lembra de que há “notícias ruins nos jornais todos os dias” e “sobre a pessoa que vem a ser o nosso presidente”.

O clima intimista e a decoração retrô do palco – com gravador de rolô, caixas vintage, fogueirinha cenográfica e telão ao fundo mostrando ora um edifício antigo ora um céu estrelado – dão um ar sério e reverente à coisa toda.

Tirar foto, filmar ou usar o celular, nem pensar. Tinha segurança fiscalizando. Nada de ficar em pé também. Quando um outro fã mais empolgadão berrava alguma coisa engajada (“Marielle presente!”) ou aleatória (“Homão da p.!”), o povo em volta contra-atacava com um “psiu” rapidinho. O visual na plateia estava mais para esporte-fino e “saí direto do escritório” do que para calça rasgada e camisa de flanela grunge. Tinha uma mulher de vestido longo.

 

Mas, de tempos em tempos, o próprio Eddie Vedder cuidava de amenizar aquela seridade obrigatória. Quando, logo no início, um sujeito no meio da plateia começou a se esgoelar pedindo “Guaranteed” (faixa de “Into the wild”), o cantor respondeu do palco, agora em inglês: “Duas coisas que você tem de ter como músico: noção de tempo e paciência”. Risos.

Uma meia hora mais tarde, Vedder resolveu atender: “Mr. Patience! Vem aqui, rápido!”. O cara foi. Ganhou um copo de vinho e ouviu a faixa na beira no palco, chorando bastante.

Nessas, geral começou a gritar, na esperança de ter a mesma sorte. Mas Eddie Vedder se esquivou: “Vocês conhecem o Mike McCready [guitarrista do Pearl Jam]? Ele toca realmente alto. Muito alto. Quando você está em uma banda há muito tempo, você perde a audição. Não estou ouvindo p. nenhuma do que vocês estão falando”.

Houve tempo, ainda, para uma piada sobre a possibilidade de Glen Hansard não usar camisinha (“não que eu tenha como saber…”). Para fechar, um agradecimento gentil e de acordo com a proposta da noite: “Obrigado pelo espírito que vocês têm. E obrigado aos espíritos”.

Eddie Vedder volta a fazer show no mesmo logal nesta quinta-feira (29) e nesta sexta-feira (30).

Fonte: G1, por Cauê Muraro


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