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Do Campo à Feira: A Melancia que Sustenta Sonhos em Sergipe

por Débora Nepomuceno

 

Em Sergipe, o sol incide generoso sobre a terra, e dessa terra brota mais do que frutos — florescem histórias de luta, inovação e esperança. Entre elas, a melancia se impõe não apenas como uma iguaria suculenta e refrescante, mas como símbolo do vigor empreendedor que pulsa nas veias do povo sergipano.

 

Nas feiras livres de municípios como Lagarto, Itabaiana e Estância, a melancia não apenas adorna bancas: ela sustenta famílias, inspira negócios e movimenta uma cadeia produtiva que atravessa o campo e deságua na cidade. Cada fruta vendida carrega consigo o esforço de agricultores, a criatividade de comerciantes e o apetite de consumidores que, juntos, formam um ecossistema econômico singular.

 

O clima quente e o solo fértil de Sergipe, aliados à irrigação constante, fazem do estado um berço ideal para o cultivo da fruta. No Perímetro Irrigado Piauí, em Lagarto — sob a batuta da Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Irrigação (Cohidro) — agricultores vêm colhendo mais que melancias: colhem oportunidades. Com técnicas modernas como o gotejamento, espaçamento racional e manejo apícola para garantir polinização eficaz, a produtividade alcança patamares notáveis, transformando pequenas propriedades em centros de excelência agrícola.

 

Seu Altacilio é daqueles senhores que parecem ter nascido com o cheiro da terra no sangue. Aos 68 anos, carrega no rosto as marcas do sol sergipano e no sorriso a leveza de quem ama o que faz. Toda semana, ele acorda ainda de madrugada, carrega a caminhonete com as melhores melancias da sua pequena plantação em Areia Branca e segue para a feira de Aracaju, “plantar melancia é quase como criar um filho… tem que cuidar todo dia, olhar o tempo, regar na hora certa, limpar o mato. Eu conheço meu roçado no olhar — sei quando a melancia tá crescendo bem e quando tá precisando de atenção. Quando chega o tempo da colheita, é uma alegria danada! Aí trago pra feira com gosto, porque sei que tô vendendo coisa boa, coisa que plantei com as próprias mãos. Não é só melancia, não, é trabalho, é história, é raiz.”

 

É nas feiras livres, no entanto, que a mágica se consuma. Ali, sob toldos coloridos e entre vozes que se entrelaçam em ofertas e risos, a melancia protagoniza um espetáculo diário de empreendedorismo popular. Vendida em pedaços generosos ou inteira, ela atrai consumidores pelo sabor e comerciantes pelo lucro, tornando-se elo entre o produtor rural e o paladar urbano.

 

Os números confirmam essa força. Em 2024, Sergipe viu nascer 27.492 novas empresas — sendo mais de 20 mil delas Microempreendedores Individuais (MEIs). Um salto de 16% em relação ao ano anterior, revelando um estado que, mesmo em tempos desafiadores, se reinventa com ousadia e trabalho. As feiras livres são, para muitos, o primeiro palco desse novo começo: acessível, democrático e pulsante.

 

Mas nem tudo são frutos doces. Os produtores enfrentam desafios reais — desde as flutuações de preço até a competição com outras regiões produtoras. Ainda assim, a resiliência do setor se sustenta em pilares sólidos: práticas agrícolas sustentáveis, apoio técnico, e políticas públicas como o Pronaf, que oferece crédito e assistência para pequenos agricultores investirem em inovação e produtividade consciente.

 

Em cada melancia que rola pelas estradas sergipanas, há mais do que água e açúcar: há suor, ciência, tradição e sonho. Nas feiras, essa fruta deixa de ser apenas alimento e se transforma em símbolo. Símbolo de um Sergipe que cultiva sua força no campo e colhe dignidade em cada venda.

 

Que essa melancia continue a ser, por muito tempo, o coração verde e doce de um estado que, com coragem e engenho, alimenta o Brasil — e a si mesmo — com esperança.

 

Foto: Joel Luiz

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