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ENTREVISTA | Corações Naufragados: Bastidor histórico com prof. Luiz Antônio

por Xanthia Valentim

 

O longa-metragem “Corações Naufragados”, produzido pela WG Produções, já causa ansiedade no Brasil todo para sua estreia. O enredo gira em torno do torpedeamento de embarcações sergipanas pelo ataque do submarino alemão, U-507, durante a Segunda Guerra Mundial.

 

O AjuFest fez uma entrevista com o doutor em História, dr. Luiz Antônio Pinto Cruz, que colaborou com sua pesquisa para a base histórica do filme, para explicar e falar sobre o valor simbólico que o longa tem sobre nossa memória nacional.

 

A.F: Em sentido mais pessoal, o que te motivou a pesquisar sobre o assunto desde a faculdade?

Então, tudo começou em 1995 quando eu ingressei na Universidade Federal de Sergipe e nós tínhamos que entregar um TCC, trabalho de conclusão de curso. Então, aqui em mente, eu tinha que escrever, pesquisar, analisar algo da história do Sergipe, só que não sabia o quê. E aí, teve uma aula da professora Terezinha Alves de Oliva, que levou a gente em visita técnica por Aracaju, e o monumento que mais chamou minha atenção foi o Cemitério dos Náufragos. Eu ouvia falar de naufrágios, torpedeamentos, porque, quando menino, vinha pescar aqui na região da Coroa do Meio e eu vi essas histórias, mas eu achava que era brincadeira. Quando a professora dissertou, a gente viu a placa no cemitério: “Aqui está o golpe que feriu o coração do Brasil”, tá mais ou menos assim na placa, foi aí que eu percebi que eu tinha uma grande história pra contar.

 

A.F: Em outros momentos, a roteirista Cacilda se referiu ao senhor como quem a inspirou a fazer esse trabalho. Como diria que foi sua participação no filme? Uma influência direta ou um apoio acadêmico?

Cacilda, ela é formada em História, ela também é estanciana, a tragédia envolve muito a costa de Estância. Cacilda reúne todos esses elementos, sensibilidade de historiadora, documentarista, estanciana e forte vínculo com o mar, isso dá um know-how e um poder a ela de pegar, ver essa estrutura do que eu pesquisei, juntar com a sensibilidade dela e criar uma arte. É uma ficção dialogando com a História. Então, História e Arte quando dialogam apresentam memórias afetivas e marcantes, onde muitas pessoas que nós entrevistamos, de idade, vão ficar emocionados quando verem o filme. É uma história que atravessa gerações.

 

A.F: Poderia dar um resumo do que aconteceu em Agosto de 1942?

O Brasil estava neutro naquele momento, durante a Segunda Guerra. A guerra começa em 39 e os ataques que o submarino U-507 vai fazer entre Sergipe e a Bahia ocorreram em agosto, entre 15 e 20/08/1942. O submarino vai atacar numa região extremamente vulnerável. Aracaju era mais uma cidade de fundo de Barras dos Coqueiros, no centro, do que na Atalaia, por exemplo, ela estava se expandindo para a Atalaia, mas não era bem uma cidade litorânea como é hoje, as nossas praias eram praias fluviais. Então, o submarino escolheu um lugar fácil de atacar, onde não teria uma resposta militar imediata. Ele se posicionou onde entra e sai os navios do porto de Salvador, da Bahia de Todos os Santos. Então eles atacaram os navios que entravam e saíam de lá,  foram 7 navios afundados entre Sergipe e a Bahia.

 

 

O dr. Luiz Antônio também explicou que as primeiras embarcações afundadas foram as sergipanas, os navios Baependí (19h), Araraquara (00h) e Aníbal Benévolo (04h), próximos a Aracaju. Como consequência desses ataques, muitas casas alemãs, japonesas e italianas em Aracaju foram arrombadas e saqueadas, em resposta ao naufrágio e ao luto popular, pela suspeita de uma possível conspiração a favor do Eixo. No entanto, a maior consequência foi a entrada do Brasil na Segunda Guerra, conforme citado na declaração de Getúlio Vargas.

 

A.F.: Foi um ataque acidental ou proposital?

Quando você percebe a forma como ele atacou, há uma logística de guerra, uma missão e uma estratégia clara. Alguns navios traziam militares do Exército, o Baependí estava cheio de militares, e a maioria deles morreu. Eles perceberam que havia informação privilegiada do submarino para atacar. Outra história marcante é em relação ao carregamento, um dos navios trazia carregamento de ferro, que ia para os EUA. Então foi um ataque estratégico, sim.

 

As embarcações baianas, conforme comentado pelo dr. Luiz Antônio durante a entrevista, foram atacadas durante o dia, enquanto as autoridades responsáveis investigavam o ataque na costa sergipana, o que demonstra a perícia militar entre os horários para o maior estrago possível no litoral brasileiro.

  

A.F: Você concorda que o evento se equiparou a Pearl Harbor? Considera essa terminologia adequada?

Eu sou da vertente dos historiadores que não concordam com essa expressão, porque o Pearl Harbor faz alusão a um ataque japonês nas ilhas do Havaí, a base naval dos Estados Unidos. Você pegar uma denominação do meio do Pacífico e trazer para o outro lado do Atlântico não é o caminho ideal. A América Latina tem que ser entendida pela América Latina, a África pela África, a Ásia pela Ásia e não por produtos prontos. Eu não usaria essa expressão. Não usaria, porque o ataque foi muito brutal, fui um conjunto de bombardeios aéreos e o número de mortes exorbitante ao longo do dia, foi um verdadeiro espetáculo. O ataque se tornou um espetáculo mesmo foi na Bahia, porque as pessoas viram. Viram o navio afundando, canoas, saveiros foram para ajudar, quando as pessoas estavam subindo no Itagiba, ele foi atacado, então eu não gosto de rotular um acontecimento para outro. Mas é um estilo. Eu respeito.

 

A.F: Qual efeito imagina que o filme terá sobre o público?

É uma guerra que marcou uma coletividade. É uma guerra que vai chamar a atenção do Brasil para Sergipe, já vem chamando, e vai fazer até nascer um museu memorial aqui da guerra, eles vão organizar. É como eu falei para Cacilda, no documentário dela: “Quem diria, né, o menor estado brasileiro tem muito a ensinar sobre a maior guerra da História.” E o filme, com atores brasileiros, globais, atores que não deixam nada a desejar, vai ser uma coisa inédita e marcante no audiovisual sergipano. Está todo mundo ansioso.

 

A.F: Como acha que o conteúdo do filme dialoga com o contexto sócio-político do mundo hoje?

Então, essa é uma questão muito delicada, né, falar da política brasileira e mundial. Mas ele diz muito, ele diz que extremismo, seja da extrema-direita ou extrema-esquerda, não é bem-vindo. Então, essa guerra, era uma guerra contra o fascismo, contra o nazismo. E essas ideias, elas ressurgiram, e é preocupante, porque ela deixou de ser um discurso de ódio para ser um comportamento de ódio, e, nesse sentido, o que eu acho que é a maior lição política do filme é deixar claro que a gente precisa respeitar o Estado de Direito, a democracia e a Constituição. A guerra, ela vai dialogar com esse sentido também, ela nos ensina o que a História sempre mostra, que aquilo que não funcionou e não deu certo, não pode se repetir.

 

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